Os 6 elementos óbvios e fundamentais sobre transporte público que ninguém te contou

10/05/2017

A omissão destes seis conceitos essenciais vem sendo um grande desserviço que os formadores de opinião, imprensa, políticos, professores aos indivíduos que utilizam o serviço. Pois criam alguns mitos e falácias que dificultam o entendimento quanto a complexidade do sistema e quais seriam as principais causas das suas ineficiências.

1. Somente indivíduos possuem desejos, e somente indivíduos se deslocam

Sempre escutamos que o transporte público é “a forma de comparte da sociedade se desloca pelo espaço urbano”.  Essa definição trata o transporte como uma solução para os deslocamentos da coletividade, sendo assim deixa de fora o mais importante: o indivíduo. E somente indivíduos tomam decisões, e somente indivíduos agem de acordo com essas decisões.

Ao ignorar o princípio de que os deslocamentos se baseiam na escolha individual, está forma de pensar o transporte, perde a oportunidade de fazer com que o serviço seja relevante para os usuários.

O transporte passar a ter valor quando o mesmo consegue atender as necessidades individuais dos usuários. Para isso o sistema tem que conhecer cada dia mais qual o perfil dos seus usuários. Quais as suas necessidades, quais as suas expectativas.

2. O valor da tarifa é subjetivo

O que é mais valioso: ingressos para final do campeonato goiano ou um livro sobre transportes?  Isto depende dos interesses de quem vai adquirir o produto/serviço.

Os elementos que valoramos só se tornam valiosos para nós quando comparados às alternativas disponíveis; quando são vistos dentro do nosso plano de satisfazer algum objetivo em relação às alternativas disponíveis. Sendo assim, a tarifa do transporte público é considerada cara ou barata quando comparada por meio de seus atributos com outra forma de deslocamento. Dependendo da qualidade do serviço prestado, até a tarifa zero pode ser cara.

Portanto, valorar algum bem ou serviço significa escolher entre esse bem ou serviço e bens e serviços alternativos. Quando fazemos as escolhas, isto é, quando agimos, o fazemos acreditando que aquela escolha, ou aquela ação, irá nos proporcionar satisfação maior do que a satisfação que os outros bens e serviços proporcionariam.

Em suma, o valor está nos olhos de quem percebe. Por isso quando um jornalista diz que a tarifa da cidade A é a mais cara do Brasil, ele comete um grande erro de análise pois só considerada o valor nominal da mesma

3. O problema da centralização

Nenhuma pessoa ou grupo de pessoas possui o conhecimento suficiente para planejar sozinha um sistema de transporte.  Muito menos para planejar as ações de centenas de milhares de pessoas.

O conhecimento dos dados surge continuamente em decorrência da interação livre e espontânea dos usuários, do espaço urbano e das empresas operadoras.  Essas interações, que ocorrem diariamente, produzem uma multiplicidade de informações que são impossíveis de serem apreendidas e processadas pelo Estado que é o planejador do serviço.  E essas informações estão constantemente mudando de acordo com as alterações nas circunstâncias.

Por isso, é impossível planejar de forma centralizada tudo isso.  Foi F.A. Hayek quem melhor enfatizou e explicou o quão literalmente impossível é para uma autoridade central coletar, agregar e utilizar esse tipo de conhecimento circunstancial de modo a efetivamente planejar uma sociedade.

Portanto o Estado sozinho é incapaz de oferecer um transporte público eficiente e aderente as reais necessidades de deslocamento da população, fazendo com que o serviço se desvalorize mais e mais.

4. Aquilo que se vê e aquilo que não se vê

Os formadores de opinião são rápidos em apresentar resultados e consequências facilmente perceptíveis (lotação dos ônibus, atrasos, insatisfação dos usuários, falta de infraestrutura…).

E aquilo que não se vê?  São poucos, para não generalizar e dizer nenhum, os que conseguem perceber as causas não-visíveis dessa situação.

A jaula que é o “contrato de concessão” que aprisiona os operadores e os impedem de buscar novas soluções. As gratuidades e benefícios tarifários que oneram a tarifa para o usuário e diminuem o ganho dos operadores, impactando assim os investimentos. As decisões políticas em relação ao reajuste tarifário e a oferta de serviço em regiões/dias/horários não produtivo. A fiscalização pública que tem como objetivo central arrecadar mais recursos para o Estado, sem se preocupar com a melhoria do serviço.

Então percebe-se que é mais fácil, colocar toda a culpa em relação a baixa qualidade do serviço prestado para o operado e não apresentar e discutir com a sociedade as formas de tornar o transporte público mais competitivo e atrativo para sociedade.

5. Inovação

Nunca escutamos ou lemos que o transporte público deveria ser gerido com espirito empreendedor buscando sempre a inovação.

A criação de valor econômico é um processo uma função-chave nesse processo de resgate do transporte.  Empreendedores criam riqueza ao alocar corretamente recursos escassos (ônibus/motorista/quilometragem) para áreas em que a demanda do consumidor é maior, gerando mais produtividade. Eles podem fazer isso criando novos serviços, ao inovar processos que irão substituir os antigos e ao descobrir oportunidades ainda não percebidas de mercado, agindo então em cima dessas oportunidades.

Empreendedorismo é perceber oportunidades que não estão especificadas nos dados.  É o ato de ver uma nova maneira de alocar meios para alcançar um fim.  Empreendedorismo não é apenas tentar melhorar algo que já existe, é transformar.

Lamentavelmente, o nosso modelo atual, como apresentado no item anterior, está amarrado ao “contrato de concessão”, somado com a grande intervenção do Estado, sufocam os operadores em inovar. Pois é mais fácil transferir responsabilidades ao operador, do que transferir também a liberdade para inovar.

6. Pare de acreditar no Estado

Estamos sempre ouvindo que estado tem que intervir no transporte para mitigar as “falhas de mercado”.  E ele é rápido em oferecer explicações que mostram como o Estado pode teoricamente melhorar os resultados do transporte

Por outro lado, quase não é falado, sobre a possibilidade das falhas serem causadas pelo próprio Estado.  E é fato que a intervenção estatal no transporte sempre torna as coisas piores.  É um caso típico de a cura ser pior do que a doença. Ademais, não há qualquer explicação sobre quem irá regular os reguladores.

Conclusão

Mark Twain certa vez disse:

“O que lhe causa problemas não é aquilo que você não sabe, mas sim aquilo que você jura saber, mas que está errado”.

No caso do transporte, são infelizmente ambas as coisas.

É lamentável perceber como os formadores de opinião criam semana a semana pautas sensacionalistas com o objetivo simples de fazer barulho e não de clarear a situação, apontando os problemas e discutindo as soluções.

Com isso, o transporte público no Brasil caminha vigorosamente a autodestruição. E quando isto acontecer, culparão somente os operadores, e reestruturarão o serviço com os mesmos erros do passado e que novamente se autodestruirá

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes” Albert Einstein

2 Comentários

  • João Luís Garcia 13/05/2017em12:36 pm

    Parabéns muito boa definição
    Hoje o que vemos é uma total irresponsabilidade do Poder Público que em nome de uma política social criam gratuidades sem antes mostrarem quem irá custear a mesma
    Fora isso o poder concedente vem sistematicamente deixando de cumprir com suas obrigações e descumprindo os contratos de concessão
    Ser um transportador no Brasil é um ato heróico

    • mpricinote 22/05/2017em3:47 pm

      João,

      Excelente definição a sua “Ser um transportador no Brasil é um ato heroico” E será que o problema do transporte não está exatamente no excesso de regulação? Será que não deveríamos flexibilizar mais os contratos?