A fraude no transporte público não é contra o Estado e nem contra as empresas, ela é contrato o usuário

03/05/2017

No transporte público da grande Goiânia existem várias formas de fraudar o sistema, seja através do mau uso dos benefícios tarifários ou evadindo (“pula catraca”). Normalmente quem comete tal ato se defende dizendo que é uma reação contra a exploração do grande capital (empresas concessionárias) – “os empresários já ganham muito”. Mas quem será que de fato paga essa conta?  Uma vez que como disse Robert Heinlein – “There is no such thing as a free lunch” – traduzindo – “Não existe almoço grátis”

Imagino que o caro leitor deve está pensando que essa discussão sobre quem paga a conta das fraudes bancárias é estúpida: no final sempre quem paga é o cliente (usuário, pais de alunos e setor produtivo através do vale transporte). Como diria o meu pai, o sistema de transporte não fabrica dinheiro, e sim é custeado pelas tarifas cobradas dos seus clientes. De uma forma ou de outra o custo com as fraudes vai ser sempre repassado para eles – sempre.

Considerando isso, vamos fazer um rápido teste. Se você fosse nomeado pelo poder público a ser o responsável pelo sistema de transportes, como você cobraria o custo das fraudes dos seus clientes?

Devido o atual modelo de financiamento, no qual a tarifa é determinada pelo rateio dos custos do sistema com a quantidade de passageiro pagante, a opção óbvia é a (a). Neste ponto do financiamento que reside o maior dano provocado pelas fraudes no transporte público

Ao não fazer o ressarcimento e cobrar a fraude diretamente do cliente que foi fraudado, o banco aumenta o risco e diminui a atratividade no canal de negócios mais lucrativo que ele possui. Fraude que ele poderia facilmente diluir como custo operacional entre seus clientes, ainda mais em um mercado bancário com as características do brasileiro.

Para os clientes a melhor opção também é a (a). Nas duas opções quem paga a conta é ele, mas na primeira opção o risco é dramaticamente menor. Como assim, diriam os “pró-ROI” ? Tio Cima explica: em termos de mercado risco é a variação dos resultados, expressada matematicamente pelo desvio padrão. Para um cliente normal, que tem aversão ao risco (ou antecipa o arrependimento), pagar digamos 30 reais em tarifa bancária mensalmente para cobrir as fraudes é melhor do que não perder nada durante cinco anos, e depois perder de uma vez só R$ 1500 reais com uma fraude.

Se é pior para os ambos os lados, então porque alguns bancos parecem estar optando pelo caminho de repassar a conta diretamente para o cliente fraudado? Bem, na verdade eu não tenho certeza que eles estejam de fato fazendo isso – a matéria do Valor Econômico é demasiado vaga e não cita nenhum caso ou banco especificamente. Eu sinceramente não acredito que eles estejam caminhando nessa direção. Os bancos são muito inteligentes para fazer isso.

Ainda assim as instituições financeiras estão diante de um dilema: a segurança do canal depende fundamentalmente de ações que só cliente pode tomar. São os usuários que têm que manter o seu sistema atualizado, o firewall ligado e o antivirus funcionando, e os bancos precisam que os clientes continuem fazendo isso para reduzir as perdas com as fraudes. Se os bancos assumirem abertamente que cobrem todas as fraudes bancárias, os clientes podem deixar de tomar estas medidas e assim aumentar as fraudes. É necessário dosar a comunicação de forma que os usuários continuem se preocupando e se protegendo contra as fraudes, mas ao mesmo tempo não fujam da Internet.

Existe um outro grande mercado que vive de riscos que dependem da ação dos clientes, e que gerencia o mesmo dilema: o de seguro de automóveis. O que as seguradoras fazem? Elas premiam os clientes que as ajudam a reduzir o seu risco: consideram o uso de alarmes e sistemas de segurança no prêmio a ser pago, dão descontos para os clientes que não tiveram sinistros, restringem a área de cobertura do seguro. Nenhum cliente de seguro de automóvel descuida da proteção do seu carro, mesmo sabendo que a seguradora irá reembolsá-lo em caso de roubo.

Os paralelos com as ações que os bancos poderiam tomar são evidentes, e ficam como exercício para o leitor.

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