Ayn Rand: Objetivismo, razão e Fé

06/10/2017

Este artigo tem como objetivo fazer uma reflexão entre a filosofia Objetivista e o Cristianismo. Mesmo sabendo que a “fundadora” desta filosofia era ateia e acreditava que razão deveria sempre se sobressair em relação a fé religiosa, iremos abortar pontos que podem evidenciar a ignorância e preconceitos de vários “objetivistas” em relação a Bíblia.

  1. As três principais divergências da Religião e o Objetivismo, segundo os “objetivistas”

a) Objetivismo defende a primazia da Existência e diz que as coisas são o que são e o que desejarem não vai mudar isso. Já a religião significa o primado da consciência e diz que as coisas são o que Deus quer que elas sejam. Aqui é um ponto interessante, pois devemos além de considerar a primazia da existência devemos avaliar o propósito do mesmo ou se tudo existe por um “golpe de sorte”. E se não existe um proposito determinado para as coisas elas podem em algum momento em outro “golpe de sorte” serem totalmente transformadas, ao simples capricho da sorte.

b) Objetivismo diz que você só pode conhecer as coisas pela lógica lidando com as evidências de seus sentidos. A religião diz que você só pode saber o que Deus diz a você. Na prática, isso significa a diferença entre acreditar no que você pode provar e acreditar no que você pode “sentir”. Outra falácia, todos possuem liberdade de escolha e de sabedoria, ou mesmo da ciência. E só conseguimos confirmar a existência de Deus na nossa vida por meio das evidencias dos nossos sentidos.

c) O Objetivismo diz, viva para si mesmo. A religião diz, viva para os outros, mas realmente viva para Deus. Aqui entra outra questão interessante, a salvação para o cristão é individual, logo devemos sim nos preocupar com as nossas vidas. Assim como um axioma importante no Objetivismo é o da “não agressão” é o mesmo para o cristão que devemos viver a nossa vida sem agredir a vida dos outros. E que o fato de ajudar alguém, é sim algo pensando no individual, ou as trocas voluntárias do capitalismo imaginado por Ayn Rand se baseia em trapaças e agressões mutuas?

Outro ponto importante que os “objetivistas” esquecem é que para o objetivismo, a realidade é um absoluto metafísico. Para religiosos, Deus é o absoluto metafísico. Se Deus existir, ele é real. Em ambos os casos, acredita-se na realidade. A única divergência diz respeito à natureza da realidade. Logo, “objetivistas” podem ser religiosos, se acreditarem que Deus é a realidade, e se basearem tal crença na razão.E isto é um mandamento bíblico:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12:1)

  1. O que quer dizer “culto racional” em Romanos 12:1?

Para entender o termo usado por Paulo, devemos primeiramente compreender as duas palavras que ele empregou.

Culto traduz uma palavra grega (latreia) que aparece cinco vezes no Novo Testamento e significa serviço. Pode ser o serviço de obediência a Deus em geral, ou pode se referir, como nas duas citações em Hebreus 9, aos atos específicos de louvor dirigidos a Deus. Assim, a palavra culto, em nosso uso hoje, corretamente descreve o serviço dado ao Senhor quando cristãos o adoram. Mas, a mesma palavra pode abranger qualquer ato de obediência que honra o nome de Deus.

Racional vem da palavra grega logikos. Este adjetivo aparece, no Novo Testamento, somente aqui e em 1 Pedro 2:2, onde descreve o leite espiritual. A forma do substantivo (logos), porém, aparece mais de 300 vezes no NT, e é traduzida por termos como palavra, conta, ensinamento, modo, ditado, testemunho, verbo, etc. A ideia principal tem a ver com discurso e raciocínio.

Sendo assim, mensagem seria que deveríamos apresentar os nossos corpos (nossa vida) ao nosso Senhor Deus como um sacrifício vivo (e não mais com animais mortos como eram feitos pelos judeus) de forma diferente dos descrentes (santos/ que significa separado) e acreditando (agradável, com Fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus), pois este é o nosso serviço e com entendimento (culto racional).

O culto racional frisa um fato importante no estudo da palavra de Deus que o conhecimento da palavra de Deus (Bíblia) exige uma aplicação prática. “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes” (Tiago 1:22).

Sendo assim o objetivismo se distancia do cristianismo pois para o primeiro o “Egoísmo” é uma virtude e para o segundo é um defeito.

  1. Definição de Egoísmo para o cristianismo

Charles Swindoll, em seu livro “Eu, Um Servo? Você está brincando”, assim define o egoísmo: “eu” – “me” – “meu” – “eu mesmo”. Com efeito, essa é a marca egoísta do comportamento humano (2 Timóteo 3:1-7):

“Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. “

O egoísta é um ser tremendamente possessivo; quer que tudo seja dele. No confronto com os outros o egoísta julga que só ele tem valor. Paulo ensina:

 “Ninguém busque o seu próprio interesse; e, sim, o de outrem” (1 Coríntios 10:24)

Resumindo, o egoísta é simplesmente aquele que coloca a si próprio como o único senhor e salvador da sua própria vida. Ele jamais conseguirá oferecer um culto racional (servir com entendimento)

  1. Definição de Egoísmo para o Objetivismo

Adotando como premissa que o egoísmo é moral e necessário para nosso bem-estar e felicidade, Ayn Rand identifica sete virtudes egoístas: racionalidade, independência, integridade, honestidade, justiça, produtividade e orgulho. E dentre estas a virtude base é a racionalidade.

A racionalidade nos guia a usar a razão – manter-se firme à realidade e à lógica – como “nossa único meio de conhecimento, nosso único juízo de valor, e nosso único guia de ação.” E como já explorado anteriormente para os cristãos Deus é uma realidade.

Sendo assim, razão é nosso único meio de sobrevivência pois é ela que nos diferencia de todas as outras espécies, nós sobrevivemos e alcançamos objetivos muito mais pelo intelecto do que pela força bruta (que é usada somente como uma mera ferramenta). Foram os nossos mais brilhantes gênios que tornaram possível a tecnologia, as riquezas e o bem-estar sem precedentes que temos hoje. Mas infelizmente pensamos e agimos também por meio de conclusões irracionais, ou seja, pelo instinto.

Na visão do objetivismo, para atingirmos nossos objetivos de longo prazo, o egoísmo de bom senso não é suficiente. O único caminho para nosso bem-estar e felicidade, sem violar direitos alheios, é o egoísmo virtuoso. Todos nós devemos entender e aplicar esse princípio.

Sendo a razão o alicerce principal do objetivismo, a Fé é a principal base do cristianismo.

  1. A Fé e Razão são opostas entre si?

A fé tem uma inimiga declarada: a dúvida. Essa palavra no grego se traduz como “diakrino” significando: separar dois elementos, componentes ou valores. Também sugere hesitação entre esperança e medo. Dúvida gera conflito, incerteza.

Apostolo Tiago compara um coração duvidoso as ondas no mar, levadas de uma direção a outra pela força do vento Tiago 1:6. Na filosofia, dúvida é princípio de sabedoria, porque através dela se estabelece métodos que conduzirão a respostas concretas.

A razão, portanto, tem como principal fundamento, o concreto – Deus, que Deus? – Eis aqui o conflito entre fé e razão e que faz com que pensamos se tornarem opositoras. A Razão quer provas concretas. Já a Fé se fundamenta no invisível:

“ora a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem” Hebreus 11:1

Enquanto os “racionais” ou “racionalistas” necessitam da dúvida, a fé a rejeita: ela é como areia movediça, terreno perigoso, prestes a devorar o morto. A Fé não habita onde houver dúvida. Eis a loucura da Cruz, o mistério do Evangelho.

“Porque a Palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está ó sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor desse século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?.” I Cor 1:18-20.

“E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas sentindo o vento forte, teve medo; e começando a ir para o fundo, clamou dizendo: Senhor, salva-me. E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o e disse-lhe: homem de pequena fé, por que duvidaste?” Mateus 14:29,31

Porém, não devemos menosprezarmos a razão (lembramos do culto racional). Tiremos a razão e ficaremos desnorteados porque Deus fez o mundo com uma ordem tal que tudo funciona perfeitamente. O cientista Albert Einstein, fascinado com as descobertas sobre o Universo falou: “Deus não joga dados”

E aí entra um dilema para os “objetivistas” ateus: como podemos racionalmente acreditar que o mundo surgiu de um golpe de sorte, no qual, do nada veio existir o caos, e do caos veio existir a ordem. Para acreditar nisto devemos ter fé nos nossos axiomas.

Considerações finais

Mesmo tendo inúmeras ressalvas ao objetivismo e a visão filosófica de Ayn Rand, por ter tamanha fé na capacidade racional do indivíduo em produzir olhando somente para si mesmo toda a moral necessária para viver de forma a não agredir outros indivíduos dotados da mesma liberdade, creio que é importante o cristianismo, neste caso a religião, voltar a dar importância/ responsabilidade necessária ao indivíduo.

Atualmente ouvimos muitas pregações colocando que tudo de mal no mundo é culpa dos nossos inimigos. Que se a situação está ruim, Deus me levantará. Mas poucos falam que a responsabilidade é individual, o que estamos fazendo de forma individual para não dar oportunidade aos nossos inimigos e o que estamos fazendo para sair da situação que nós nos encontramos.

Li a Revolta Atlas, gostei muito, eu confesso, mas devemos ler Ayn Rand com “moderação”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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