Relato de fatos do colapso do Sistema de Transporte Público Coletivo

08/06/2017

O último post felizmente trouxe um bom debate o que me fez perceber que faltava uma explicação melhor sobre os principais eventos que estão levando o setor ao colapso. É importe ressaltar que o transporte público deve ser entendido como um serviço oferecido a todos e é este o entendimento quanto a palavra “público” e não como se fosse algo meramente estatal.

Até 2012 o Sistema de Transporte Público apresentava uma situação positiva proveniente dos investimentos públicos em Infraestrutura proveniente os PACs (PAC Copa, PAC Grandes cidades, PAC Mobilidade…) e novos Marcos Legais provenientes das licitações que estavam ocorrendo.

Neste período o Sistema de Transporte Público conseguiu estabilizar a redução de demanda surgida no início do século XXI

Fonte: NTU (2016)

Entretanto, em 2013, as revoltas contra os aumentos de tarifa provocaram o congelamento das mesmas o que levou o sistema a acender a luz amarela. E esta ação provocou uma reação rápida dos governantes: o congelamento das tarifas

 

Como reflexo as cidades cujo o sistema é financiado única e exclusivamente pela tarifa foram impactados negativamente por estas medidas, pois as receitas não acompanharam os custos provocando um grande desequilíbrio econômico-financeiro no setor

A crise oriunda dos congelamentos de tarifas em 2013 demostrou que o Sistema de Transporte Público não suportava mais ser financiado exclusivamente pela tarifa, como apresentado a seguir:

  • O AMBIENTE
    • Política equivocada– privilégio para os carros – Perda de passageiros
    • Aumento do trânsito – menor velocidade – Perda de eficiência
    • Mais gratuidades – menos pagantes – Perda de receita
  • O FATO
    • Congelamento da tarifa
  • AS CONSEQUÊNCIAS
    • Insegurança jurídica – Suspensão de investimentos
    • Crise nas concessionárias – Degradação no serviço
    • Suspensão dos investimentos – Sucateamento

Em adição a crise estrutural, evidenciada em 2013, a partir de 2015 o Brasil mergulhou na maior crise da história

Folha de São Paulo; NTU; Banco Central e Ministério do Trabalho e Emprego

O que já estava enfraquecido com a crise dos congelamentos de tarifas ficou em situação mais grave com a crise econômica, pois como o transporte público é uma atividade meio, se as atividades fins (trabalho, escola, lazer…) sofrem uma queda, esta impacta diretamente no setor de transporte público.

Além da crise econômica e estrutural (crise das tarifas) o sistema ganhou um novo concorrente: os serviços de compartilhamento de viagens por meio de aplicativos, como por exemplo o UBER.  E esta situação levantou uma importante questão para o setor: – Como o Sistema de Transporte Público com baixa flexibilidade pode concorrer com as novas tecnologias?

E por causa desta conjuntura de fatores é que o panorama atual pode ser comparado a uma tempestade perfeita.

“A expressão “tempestade perfeita” é um calque morfológico que se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre”.

E agora, diferente de 2013 a situação mudou e infelizmente foi para pior, agora temos:

  • O AMBIENTE
    • Devido à crise política e fiscal o Poder Público se demonstra cada vez mais ausente das discussões sobre o transporte
    • Cidades/estados que concediam subsídios ao sistema, atualmente estão inadimplentes ou diminuíram o repasse
    • A sociedade cobra cada vez mais melhoria na qualidade do serviço e sem aumento nas tarifas
    • Entretanto o número de passageiros está caindo cada vez mais diminuindo as receitas dos operadores
  • O FATO
    • Colapso do atual modelo de Sistema de Transporte Público financiado somente pela tarifa e com grande intervenção estatal
  • AS CONSEQUÊNCIAS
    • Degradação da imagem do setor perante a sociedade
    • Falta de recursos para o custeio do serviço
    • Falência ou Recuperação Judicial de algumas empresas

Existe saída? A situação atual exige medidas drásticas e inovadoras. O Sistema de Transporte Público tem que se reinventar. Temos que buscar soluções em todos os campos de ação:

1 – Repensar as relações de trabalho: terceirização da atividade fim
2 – Buscar novas tecnologias e um novo relacionamento com o passageiro
3 – Buscar novas formas de financiamento do setor. A conta não deve ficar só com o passageiro pagante.
4 – A tarifa não pode ser ato de governo, ela deverá obedecer as regras do mercado, podendo ser variada por mês, tipo de dia, horário, tipo de linha,etc

5 – Extinção ou subvenção dos benefícios tarifários pelos entes que os concederam

E você leitor, qual seria o seu posicionamento frente ao colapso. E qual a sua sugestão?

2 Comentários

  • Luiz Felipe Gomes Dellaroza 08/06/2017em11:01 pm

    Trabalho atualmente com planos de Mobilidade, vejo uma resistência muito grande a mudança na organização dos traçados das linhas de ônibus. A centralização das linhas para chegar aos terminais cria a necessidade de grande quantidade de linhas de ônibus que terminam por atender uma mesma área por em geral terem que seguir pelas mesmas vias estruturais da cidade. Nos trabalhos que verifique em Barcelona Espanha, estava sendo proposta um rede ortogonal de ônibus sem a existência de um terminal central o que aumenta a cobertura e acessibilidade do sistema e permitia aumento da frequência das vias.
    Também vejo a oportunidade de melhor associação com sistemas de bicicleta compartilhada, tendência crescente em todo mundo esses sistemas poderiam servir como sistemas alimentadores dos principais corredores BRT.

    • mpricinote 12/06/2017em6:54 pm

      Luiz,

      Devemos avançar neste assunto, pois o assunto está cada mais mais politizado e menos técnicos. O transporte público é renegado, não existem lideranças, e com isso o caos deve agravar ainda mais